2011

Fechei os olhos e inspirei profundamente, sentindo esmaecer toda a tensão acumulada em meus ombros. Uma fina garoa cobria o matagal que me cercava, e tudo que havia além da escuridão era um doce perfume de rosas, as quais farfalhavam como se estivessem dando adeus ao ano velho. Tudo parecia comemorar e acreditar, como se o passar de uma noite fosse resolver dores que se acumularam por tanto tempo.   E o que vi realmente não foi nada mais que uma noite sem estrelas, como se cada pessoa no mundo erguesse as mãos aos céus e envolvesse cada um dos astros, deixando sobre aquela estranha noite de verão uma terra pulsante de esperança.
10

Corpos se empertigaram ao longe, sentindo o comichar da excitação percorrer-lhes a espinha enquanto aguardavam ansiosamente a chegada do ano novo. Vestiam roupas brancas, longos vestidos, calças e bermudas, sorrisos de paz; o mar provava suas sandálias enfeitadas e clamava que lhe dessem as rosas que seguravam, as loucas rosas farfalhantes que ainda exalavam seu perfume e conferiam ao verão um estranho ar primaveril. As emoções condessaram-se em um único canto, forte e límpido, vindo de não sei de onde, na voz de uma mulher.
Ela cantava adeus.

9

Vozes roucas, afinadas, estridentes, graves e agudas, todas juntas acompanharam o singelo cantar. Não eram palavras de gratidão, não era um pedido e naquele coro também não havia fé. Havia apenas aquele estranho gosto nas palavras, que não era doce, azedo ou salgado; não tinha sabor de até logo ou de mentira, e quando o vento açoitou o mar, espumando ainda mais as ondas, percebi que era a estranha sensação do nunca mais.

O gosto da vida.

Implacável e silencioso, que não dá chance de despedida e segue, indiferente, entre rios de lágrimas, na cacofonia do choro e na amargura da sanidade. Espero algum dia perceber que tudo prosseguirá, assim como o nada permanecerá sendo tudo aquilo que desconhecemos.

8

A canção quebrara-se em decorrência do próprio sentimento que a constituíra, assim como quebraram as vozes daqueles que a erguiam aos céus. Percebi o aperto em meu próprio peito e entendi que aquilo fora causado pela canção de adeus, que nos lembrara de nossas próprias despedidas enterradas no fundo do coração – aquilo nos rasgara, expondo as lágrimas que haviam sido escondidas em algum dia de nossas insignificantes existências. A dor emergia furiosa e insana dos peitos mortais, urrando, mas os ignorantes a calavam com a esperança de que em alguns segundos tudo seria melhor.
E para mim, melhoraria quando? De certeza, nem em poucos segundos nem em mil anos, porque eu já dissera as palavras de nunca mais.

7

Estava na beirada do rochedo, já afastado da vegetação, observando as pessoas ao longe. Pareciam pequenas e inúmeras velas brancas, e me senti feliz ao imaginar que isso poderia ser uma homenagem àquela criança de sorriso fácil e olhos brilhantes. Aqui o mar se agita, diferentemente do local onde estão todos os outros, e também parece extasiado, como se contaminado pelas preces tivesse criado vida. A chuva se aperta, o céu chora e o mar permanece inquieto bem abaixo de mim.

6

Um pequeno passo. Olho para o céu, como se esperasse alguma coisa, e mesmo que saiba que Deus está morto sei também que a esperança e o desespero são humanos, assim como eu. Brotam lágrimas.
5

O peito arde, minha voz estrangula. Tudo está se perdendo.

4

Mais um passo, ninguém percebe. Melhor assim.

3

Lembro-me dos olhinhos vidrados da minha criança, e, num lapso de insanidade, rezo a Deus para que ela esteja bem. Despenco.

2

Talvez não devesse ter pulado. Talvez fosse melhor ter feito mais barulho, ter chorado, ter gritado, chamado atenção para que me impedissem. Não sei. Mas agora arrepender-me somente mancharia a memória do meu moleque, então apenas pensei nele...

1

E o mundo perdeu-se quando deixei que a melodia do mar me levasse, e abri os olhos uma última vez.

Eu te amo, meu filho.

Não vi 2012 chegar.

 Por: Luíza dC.

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