Você acha que partiu o meu coração?
Não.  Talvez tenha arranhado, deixado algum hematoma, nada não, isso passa. Mas partir? Quebrar? Você não teve força, não teve tempo, não teve vontade. Não se pode quebrar algo a que não se tem acesso.
Acha que eu fiquei triste?  Não. Você ainda não havia vencido a indiferença. Não consigo chorar pela perda de algo que talvez tivesse acontecido.
Foi quase. Mas não.
Faltaram flores, balões e chuva.
 Por: Luíza dC.

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Os copos que a gente joga fora +Comentar 0 comment(s)
   
Achei que seria difícil esquecer você. Não foi. Se eu te contasse, você acharia que o mais triste foi a dor que eu senti?
Talvez tenha doído um bocado, mas já houveram dores tão piores que foi quase como nada. Não tive medo de me machucar, aliás, porque eu gosto da vida, e das coisas que à ela pertencem; e a dor, assim como a felicidade, pertence à vida, e elas são intrínsecas uma à outra. Ora, eu sempre quis ser feliz.
O mais triste não são os sentimentos erodidos, os sonhos desbotados, nem as esperanças rasgadas, nem mesmo a indiferença que restou. O mais triste é tudo o que aconteceu entre o mim e o você, sem que você percebesse ou fizesse parte.
E agora é ridiculamente fácil conversar com você, provocar seus sorrisos, olhar nos seus olhos, abraçar. Isso porque agora me sinto como deveria ter sentido desde o início: já não me importo mais se sou legal ao seus olhos e me é pateticamente indiferente a sua opinião. Só me importa, agora, ser eu, porque eu me basto.
Nada pessoal. Houve apenas o dia em que percebi que não mais me importava, assim como há dias em que percebemos que há uma rachadura naquele copo específico, e a gente deixa de lado, porque, sabe como é, por mais que sejam coladas, rachaduras não desaparecem.
 Por: Luíza dC.

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 Eu podia olhar para você e dizer o quanto estou triste. O quanto o silencio me aperta, o quanto o tumulto me fere, e que o desespero está pouco a pouco corroendo a minha alma. Podia dizer que estou com medo. Ou que perdi a esperança.
Mas eu sei, sempre soube, que se o fizer, receberei um olhar compreensivo de quem pouco acredita, e que você me dirá que procuraremos meios de superar este problema. E então, na primeira vez que eu fraquejar, você dirá que é porque eu não tenho coragem, quando eu estiver descrente, você dirá que é porque eu tenho medo de me decepcionar, e quando eu me sentir um lixo, você não vai perceber e achar que é frescura. E no dia em que eu disser que estou apavorada, você vai pensar que estou exagerando. Porque eu 'sou uma pessoa difícil'. 
Já ouvi isso tantas vezes que acredito. Não acredito mais que tenha direito sobre aquilo que sinto. Sorrio, é mais fácil que chorar,causar perguntas chatas, ser uma 'pessoa difícil', mesmo que seja uma tudo uma farsa, mesmo que todo mundo acredite.
Não tenho mais nenhum sonho, nem espero nada do futuro. É verdade, e vai continuar sendo, mesmo que ninguém acredite.
 Por: Luíza dC.

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2011

Fechei os olhos e inspirei profundamente, sentindo esmaecer toda a tensão acumulada em meus ombros. Uma fina garoa cobria o matagal que me cercava, e tudo que havia além da escuridão era um doce perfume de rosas, as quais farfalhavam como se estivessem dando adeus ao ano velho. Tudo parecia comemorar e acreditar, como se o passar de uma noite fosse resolver dores que se acumularam por tanto tempo.   E o que vi realmente não foi nada mais que uma noite sem estrelas, como se cada pessoa no mundo erguesse as mãos aos céus e envolvesse cada um dos astros, deixando sobre aquela estranha noite de verão uma terra pulsante de esperança.
10

Corpos se empertigaram ao longe, sentindo o comichar da excitação percorrer-lhes a espinha enquanto aguardavam ansiosamente a chegada do ano novo. Vestiam roupas brancas, longos vestidos, calças e bermudas, sorrisos de paz; o mar provava suas sandálias enfeitadas e clamava que lhe dessem as rosas que seguravam, as loucas rosas farfalhantes que ainda exalavam seu perfume e conferiam ao verão um estranho ar primaveril. As emoções condessaram-se em um único canto, forte e límpido, vindo de não sei de onde, na voz de uma mulher.
Ela cantava adeus.

9

Vozes roucas, afinadas, estridentes, graves e agudas, todas juntas acompanharam o singelo cantar. Não eram palavras de gratidão, não era um pedido e naquele coro também não havia fé. Havia apenas aquele estranho gosto nas palavras, que não era doce, azedo ou salgado; não tinha sabor de até logo ou de mentira, e quando o vento açoitou o mar, espumando ainda mais as ondas, percebi que era a estranha sensação do nunca mais.

O gosto da vida.

Implacável e silencioso, que não dá chance de despedida e segue, indiferente, entre rios de lágrimas, na cacofonia do choro e na amargura da sanidade. Espero algum dia perceber que tudo prosseguirá, assim como o nada permanecerá sendo tudo aquilo que desconhecemos.

8

A canção quebrara-se em decorrência do próprio sentimento que a constituíra, assim como quebraram as vozes daqueles que a erguiam aos céus. Percebi o aperto em meu próprio peito e entendi que aquilo fora causado pela canção de adeus, que nos lembrara de nossas próprias despedidas enterradas no fundo do coração – aquilo nos rasgara, expondo as lágrimas que haviam sido escondidas em algum dia de nossas insignificantes existências. A dor emergia furiosa e insana dos peitos mortais, urrando, mas os ignorantes a calavam com a esperança de que em alguns segundos tudo seria melhor.
E para mim, melhoraria quando? De certeza, nem em poucos segundos nem em mil anos, porque eu já dissera as palavras de nunca mais.

7

Estava na beirada do rochedo, já afastado da vegetação, observando as pessoas ao longe. Pareciam pequenas e inúmeras velas brancas, e me senti feliz ao imaginar que isso poderia ser uma homenagem àquela criança de sorriso fácil e olhos brilhantes. Aqui o mar se agita, diferentemente do local onde estão todos os outros, e também parece extasiado, como se contaminado pelas preces tivesse criado vida. A chuva se aperta, o céu chora e o mar permanece inquieto bem abaixo de mim.

6

Um pequeno passo. Olho para o céu, como se esperasse alguma coisa, e mesmo que saiba que Deus está morto sei também que a esperança e o desespero são humanos, assim como eu. Brotam lágrimas.
5

O peito arde, minha voz estrangula. Tudo está se perdendo.

4

Mais um passo, ninguém percebe. Melhor assim.

3

Lembro-me dos olhinhos vidrados da minha criança, e, num lapso de insanidade, rezo a Deus para que ela esteja bem. Despenco.

2

Talvez não devesse ter pulado. Talvez fosse melhor ter feito mais barulho, ter chorado, ter gritado, chamado atenção para que me impedissem. Não sei. Mas agora arrepender-me somente mancharia a memória do meu moleque, então apenas pensei nele...

1

E o mundo perdeu-se quando deixei que a melodia do mar me levasse, e abri os olhos uma última vez.

Eu te amo, meu filho.

Não vi 2012 chegar.

 Por: Luíza dC.

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Aquela catadora de estrelas +Comentar 0 comment(s)
É como se eu fosse um céu sem estrelas ou um mar sem conchinhas. É como olhar para a lua e esquecer de São Jorge, ou como ser criança e não lembrar de sorrir. É como quando chove, mas sem o frescor da terra molhada, é como num instante em que o fim de tarde se enraivece numa repentina tempestade, e você lá, meio perdida, meio encontrada, pequena, com medo dos trovões.
É como ser feliz, mas ainda não.
São aqueles estranhos segundos antes de cair, essa estranha sensação de irrealidade e impotência. É o choque doloroso, implacável, de um corpo batendo no chão. É despetalar uma rosa, e só então perceber o quão bonita ela era.
E cada palavra é como o vento que bagunça as folhas de outono caídas no chão. E cada sorriso foi como o último brigadeiro da festa. E cada lembrança é como o quebrar de um sorriso de vidro ou o escorrer da última lágrima.
É a percepção e a realização da saudade. E também é como as conchinhas que perdi na areia.

 Por: Luíza dC.

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 Por: Luíza dC.

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Eu queria ser escritora.
Eu realmente queria. Porque é o único jeito de sobreviver. Porque o resto do tempo é tanto gargalhar de tristeza, é muito mergulhar no mundo pra fugir dele, e muito sobre muita gente, e  parece que essa multidão de tudo e de tanta coisa existe pra disfarçar que, na verdade, não há nada nem ninguém. E isso quando não sufoca, afoga, e a ideia de afogar, ou sufocar , no nada, não me é aceitável.  Então escrevo - para poder respirar.
O que acontece, portanto, é que as palavras que saem são muito eu, e, aparentemente, eu não basto. Não escrevo mais. E se algum dia eu já quis ser escritora, este dia está mais distante do que todos os anos que vivi e todos aqueles que viverei. 
Quero ser sobrevivente.

 Mesmo que tenham me dito que todo texto meramente explicativo é redundante, que se dane. Eu prefiro murmurar ao vento, se for pra ser assim, sem eu explicar, sem a outra parte entender. Não, eu não vou abrir mão do parênteses, e nem do travessão. Não importa se é redundância - escrever é para mim uma arte, e arte é muito menos pensar para fazer, do que fazer para pensar. 

     Não devia ter parado de escrever. Isso porque quando a gente deixa de usar as palavras, elas esquecem que foram domadas, e fogem à boca, e mordem a língua, e se forçam garganta abaixo. E dói.

Não escrevo, porque não quero. Não escrevo, porque ninguém lê. Não escrevo, porque apenas não sei. Refugio-me, quando todo o resto desmorona.
Mimimimi, até. 
Lú :D 

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Você se lembra? +Comentar 0 comment(s)
Foram muitas conversas, de fato.  Falamos sobre o tempo, sobre a chuva, sobre o calor, como vai a escola, como foram as férias, como será o ano que vem. Falamos tanto, e não falamos nada.
Preenchemos vazios, espaços brancos de tempo, mas não falamos, realmente. Reconhecíamos um a presença do outro, cumpríamos rituais, mas nunca nos importamos muito. No fundo, tenho certeza que nos amávamos, mas não me lembro de sequer uma vez termos dito isso. Hoje, me pergunto por quê.
Tínhamos pressa.
 Esquecemos de nos importar? Talvez. Nos iludimos que amanhã poderíamos fazer melhor. Tivemos vergonha, tivemos compromissos. Tivemos receio. Nunca mais quisemos saber se estava tudo bem, e o "Como está?" se transformou em algo próximo do "Já te vi aí". Preocupados com a prova, com a festa, com outros e com ninguém, fomos deixando de lado, porque da próxima vez a gente se fala melhor. Perguntamos, sem buscar resposta. Respondemos, sem entender a pergunta. E em algum canto, na penumbra da vida, perdemos aquele pedaço da gente que sabia que nós éramos mais importantes que tudo.
E agora o futuro parece meio sem jeito. E quando esqueço, ainda fica aquele gosto de que está faltando alguma coisa, que nem parecia tão vital, tão necessária, até a gente olhar ao redor e não achá-la. 
Cadê, cadê, cadê?
Eu nunca tinha notado o quão acolhedor era ver você sentado lá, mesmo em silêncio, até ver a cadeira vazia. 
E a chuva, o choro dos trovões, o fim de tarde e as bicicletas no quintal; aquela saudade, o morro e os boizinhos brancos, as folhas e os rabiscos espalhados, os brinquedos no chão. A ilusão do para sempre. O Eu Te Amo.  As coisas que a gente vai esquecendo, as coisas que a gente vai tentando esquecer e as coisas que nunca tivemos tempo pra perceber. Essas foram as coisas que eu não te falei.

E agora, o medo do nunca mais.

 Por: Luíza dC.

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